domingo, 1 de setembro de 2019

Encontro no escuro *


Era um lugar triste, frio e solitário em que eu estava, e o vazio me preenchia, quando nos encontramos. Na treva recebi seu abraço, você secou lágrimas antigas, me proporcionou outras frescas, me tocou como se há tempos não encontrasse uma pessoa viva e uma pequena labareda se acendeu, quando me percebi reconhecida na escuridão. O toque de suas mãos me conduziu a um universo privado, só nosso, de chama e sombra e paixão e delírio. Um paraíso quente e úmido e intoxicante, para onde poderíamos fugir do mundo, com toda dor que carregávamos. 
Confessamos nossos pecados e medos, expusemos nossas deformidades, exibimos as cicatrizes  mas disfarçamos as feridas abertas,  revelamos nossas pequenas monstruosidades e isso nos fez sentir mais humanos – acolhidos pelo reconhecimento nivelador da pequenez de nossa própria espécie. 
Terminado esse encontro dramático, como corpos no espaço que colidem, continuamos nos distanciando na imensidão. E a chama explosiva que me impulsionara tanto através do frio caos do vácuo em que me achava, foi perdendo força e calor até restar somente um ponto. Uma pequena luz, pálida e fria, sobrevivera do acidente que nos reuniu e separou, uma luz faminta, fraca e dolorosa, clamando para ser nutrida, alimentada e cuidada. 
Só que eu não sabia como fazer isso, então, já que eu pensava não ter nada a lhe oferecer de alimento, dei-lhe a mim mesma. A luz pulsava, mas não crescia, enquanto eu desaparecia cada vez mais, tragada por seu apetite voraz. Até que sumi por completo, e a luz também, e tudo o mais desapareceu. Foi quando me dei conta de que tinha sido reduzida a pequena partícula de poeira, minúscula e opaca, pairando no nada, como vaga lembrança do que fora. 
Pairando imóvel um segundo, em seguida eu-poeira pendeu oscilando, até encontrar o ponto mais fundo de um vazio imaginário e por isso, interminável. 
Por um átimo de segundo além do tempo, a eu-poeira repousou ali no fundo do abismo do mundo, entre a agonia do isolamento de ser único e completamente só, e o gozo transcendental de converter-se em nada, diluído no todo. 
Mas o bafo do destino cessou, pois já não podia mais alcançá-la ali no ventre do mundo e a oscilação perniciosa do seu pêndulo já não mais podia estremecê-la. Ali dentro, pressentindo-se a mesma poeira que a tudo compunha, sentiu um novo sopro a mover, elevando-a com um som muito doce, e fazendo-a girar e brilhar, se espalhando no nada, feito galáxia. Agora já são incontáveis pontos de luz a formar um novo eu, iluminado e grato por existir. 
Ali dentro, no vazio, deitada no escuro sozinha, mergulhada na lama, retornando ao pó de onde viera, encontrava a Deus. Não num altar ou em histórias antigas e incompreensíveis, mas como energia pulsante, água viva que nutre e aquece, ilumina e areja as paragens, clareando horizontes distantes, inflamando o desejo por um mundo mais amigável e livre, alimentando a esperança por um futuro mais doce e acolhedor e inspirando nova fé na beleza da vida. 
Ainda que projete alguma sombra de crepúsculo, minha aurora se anuncia e, finalmente, sou luz e, voltando meu olhar para fora vejo muitas outras luzes de incontáveis cores flutuam ao meu redor, me mostrando do que o mundo é feito. Como emito luz, posso ver a mim mesma e já não preciso mais das mãos de outra pessoa para perceber minhas proprias formas e contornos. Me sinto renascida e expectante por uma nova jornada, que me aproxime ainda mais de minha origem e minha essência. 
Então me lembro de você, que atravessou ao meu lado a matéria escura em meio ao medo e dor e auxiliou minha chegada até aqui. Olho em sua direção e o vejo acenando à distância, incapaz de me ouvir, se afastando lentamente, mais e mais da luz que emito, até que já não possa vê-la e se torne apenas lembrança, enquanto some no horizonte e finalmente se esquece até mesmo de quem foi. Distante, frio e solitário, se apagando na imensidão do vácuo, indiferente a tudo... só uma poeira na imensidão... 

(ou "O Conto de uma descida solitária compartilhada, ou - "Narrativa subjetiva sobre um romance imaginado entre duas pessoas deprimidas", ou ainda - "O ápice, o fim e o começo")

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