quarta-feira, 22 de abril de 2009

Um adeus

Hoje te escrevo um adeus
finalmente, tristemente
celebra hoje a tua vida
e esquece-te de mim

Como uma brisa leve que sopra
apago em ti toda a memória
todas as lembranças
que se reduziram a pó

Faço desaparecer toda a paixão
todo o tormento, toda a doçura
e toda a dor, repulsa e gratidão
não há lugar para compaixão aqui

Que suma-se em ti
toda recordação minha
cada passo dado juntos
nos levou a caminhos separados

Que desperte da alucinação que eu fui
que renasça agora renovado
teus sonhos devem ser novos hoje
e que leve de mim apenas um sorriso...

Senhora do gelo

Quero o frio invernal
nada terno, nada morno
quero dor e fealdade
e a verdade sem adorno

Não me dê palavras doces
não me ofereça amabilidades
diga logo o quer, ou se cale
é preciso praticidade!

Quero um mundo sem música
um lugar sem poesia
os poetas mentem, é sabido
e adormecem a libido

Me deixem andar sob a névoa
sozinha, como condiz
quero ser rainha em meu trono
na ponta do meu nariz

Ventos do Norte

Eu clamo pelos ventos do Norte
os mais frios e furiosos
é por eles que eu rogo
sua força avassaladora

Se eu morrer agora
quem irá chorar por mim?
Se seu olhar descuidado
me atravessa com veemência

Em que abrigo irei me ocultar?
Não! Clamo os ventos do Norte
que me atravessem com furor
que purifiquem até a morte!

Não quero lágrimas
nem mãos estendidas
seja igual a mim
não me dê nada

Apenas fique e observe
enquanto lhe apraz
e tome seu caminho
quando for a hora

Só o que levo são palavras
carregadas pelo vento
e minha gargalhada que ecoa
para bem além do tempo

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Quase nunca somos o que somos...

Quase nunca somos o que somos... Com alguma sorte, somos protótipos do que somos, mas na maioria dos casos acaba-se sendo apenas aquilo o que esperam que se seja. Feliz daquele que consegue ser plenamente o que é, ou pelo menos quem se esforça pra isso - alcançar o "miserável sedutor do Eu" :-). Eu particularmente tenho feito um grande esforço ultimamente para me parecer mais comigo mesma, mas acho que ainda falta um tanto...

Sopre vento

Eros dentro presente
como labareda ampla ardente brutal
lambendo o ventre a carne o sangue
e o céu escuro e vazio
olhando ao longe indiferente
decreta
"só deverá se consumir
queimada em suas próprias chamas!
queime, queime, queime!"
e ri indiferente
pouco lhe importa quem me lambe
a inspiração é dolorida
como um corte inflamado
e a solidão pungente
como uma ferida sob o vento frio
mas vente vento vente
e eu me inspirarei
até que uma língua diferente
cale meus pensamentos...

Indômita

Tenho um vazio que se enche de palavras
um desdém repletamente povoado
Atalanta em busca de elevados ideiais
inalcançáveis, inexistentes?

Decida-se! Vocês me pedem
Há tempos já sei o que almejo
porém meus braços são curtos demais
devo apanhar os frutos do chão?

Indômita, sim e quem deseja
por companhia um olhar tão frio?
Mas só olhos argutos perceberiam
as flamas ardentes sob o manto da indiferença

Haverá mente astuta
e coração sensível
capaz de desnudar tal face
e revelar a ânsia pelos desígnios
da deusa nascida da espuma do mar?

Oposição

Você tem um ego sensível
e eu uma indiferença distraída
você é intenso e meticuloso
eu, caótica e dispersa

Nossas chamas brilham
em cores diferentes
o contraste é gritante
mas a visão bela

Poderemos imiscuir nossos fluidos?
Nos será permitido
organizar o caos
e destruir a ordem?

Quantos desejos fluem
e se sucedem
na correnteza desse rio
borbulhante e profundo

Líquidos que não misturam
materiais que não se fundem
é isso o que somos?
A isto estaremos fadados?

Te desprezo agora
enquanto me rejeita
anseio por seu toque
enquanto pensa em mim

Que faremos com o tédio
e com tanta discrepância?
Estarão os opostos destinados
ou a repulsa é o movimento final?

Deuses mortos

Afinal quem somos? Que fazemos aqui?
Vivemos num tempo negro
definitivamente deve ser o fim dos tempos!
Nossos deuses morreram há tempos
não há mais deuses na Terra
Estamos por nossa conta
e o que temos feito?
Ah quanta dor, quanto vazio
e quanta falta de propósito!
Quem somos nós?
Somos deuse mortos
somos templos em ruínas
somos cadáveres ambulantes
Somos a sombra de sonhos
jamais realizados
Somos os restos daquilo
que um dia desejamos ser
Nossa finalidade aqui já acabou
nossa missão terminada
fizemos mal, erramos muito
mas já não há mais como voltar atrás
e não há mais tempo para reparos
Esta falta de propósito
essa ausência de ideais
só podem significar
que chegou o fim dos tempos
Quando se sabe que a morte chega amanhã
pra que se esforçar em concluir algo?
Quando sentimos que o fim está perto
o que mais podemos esperar realizar?

Chove

Quando chove a minha alma se compraz
e enfim com os céus se comunica
a abóbada cinzenta, o aguaceiro voraz
a tormenta ruge fora e dentro suplica
Sem afrontas de um pôr-do-sol deslumbrante
sem rir-se descarado do meu pranto
não suporto mais tanto desplante
deixem-me só aqui no meu canto

Necrofilia

Meu corpo jaz imóvel ao teu lado
teus olhos percorrem cada detalhe
observa o rubor abandonar minhas faces
teus dedos tocam meu ventre ainda quente

Tua rigidez encontra a minha
tão diferentes quanto Hélio e Cibele
fogo e gelo numa união impossível
quando dia e noite não existem

Sente prazer em minha inércia
minha passividade te excita
quer dizer que serei tua
por toda a eternidade

Pode me possuir todas as vezes
porém seu domínio é tolo e carnal
minha alma já pertence a outro
é Tânatos meu amante final

Vão sacrifício

Quero um público só meu
atento, boquiaberto
respiração suspensa
a espera de cada gesto

Anônima eu vim ao mundo
e desconhecida passei por ele
mas este meu "grand finale"
quero que seja perene

Aplauda platéia, aplauda
urre, chore e se emocione
do meu sangue bebam
minha carne comam

Me estendo na cruz
penduro-me na forca
só quero seus olhos
e ouvidos em mim

Mais ainda em meu último espetáculo
quando todos os olhares se voltaram
não são aplausos que ouço
me desdenham e riem de mim!

Aquela que escreve

Eu a observo sempre...
Ela é uma escritora, eu acho
pelo menos ela escreve para viver
Esta mulher que ainda sorri cansada
de olhar duro e severo
penetrante e misterioso
que parece tão distante e inalcançável
Eu conheço sua história
Ela conheceu a felicidade antes
lhe parecia doce, mas pequena e fraca então
Porém veio a dor, intensa e implacável
a sua dor e a dor dos outros
tudo isso ela sentiu
e depois disso, cada riso tornou-se precioso
insubstituível cada momento de alegria
Hoje sua dor é grande e forte e graças a ela
seus momentos efêmeros de felicidade
também o são
Ela parece carregar consigo todos os anos do mundo
parece ter vivido todas as vidas
e viveu
Seu rosto ainda é jovem
mas seu olhar tem milênios
Ela ainda espera por um final feliz
pelo momento em que a dor seja suficiente
e dê lugar a uma alegria mais plena
Ela espera por isso
mas não acredita...
Seu futuro lhe parece solitário e sombrio
ela vê a dor dos outros e seus erros todos
sabe o quanto vão sofrer
e sofre por não poder impedir
Mas ela aprendeu a extrair prazer de sua dor
não da dor em si
mas do que a acompanha
Depois de provar do fruto do conhecimento
não é possível voltar a viver em inocência
não é permitido carregar ainda nos lábios
o sorriso dos tolos
A dor é o preço da felicidade suprema e fugidia
Só ela é capaz de tornar mágico cada simples minuto
Mas ela sofre ainda mais
porque vê um mundo que ninguém mais vê
sabe de coisas que ninguém mais sabe
conhece uma realidade que é incapaz de partilhar
e nem ela deseja isso
pois levaria a almas ainda sãs
um sofrimento que não poderiam suportar
Então ela carrega sua visão sozinha
como uma cruz de mártir
e se afasta da multidão
como quem não pode estar entre os seus
como uma estranha numa terra estranha
Ela lamenta que não haja ninguém
que queira provar de sua droga inebriante
todos que tem um vislumbre
ficam aterrados de medo e fogem
se desculpando
Mas ela não odeia a estes
pois compreende o medo em seus olhos
é um caminho de luz escuro demais
atemorizante demais
há outros mais fáceis, mas não tão belos
Mas a esperança se desfaz cada vez mais
e o futuro se torna cada vez mais triste e previsível
tanto que às vezes esta mulher não se sente um ser vivente
sente-se mais uma expectadora de sua própria vida
assistindo atos de um roteiro que já leu
Desejando que um autor desconhecido interviesse na história
com sua pena inovadora
Mas não parece haver surpresas felizes em seu caminho
e ela sabe que deverá reescrever sua própria história sozinha
de novo, de novo e de novo
e as histórias dos que a cercam também, ela já conhece
e tudo isso ela deve escrever sozinha
tudo o que vê com seu olhar severo e penetrante
ela sorri às vezes, para não assustar as crianças
mas sozinha no escuro da noite
ela tem de escrever, e tem de se cortar
para encher o seu tinteiro com seu próprio sangue

Um dia a mais

Dia após dia, hora após hora
travo uma batalha sem fim
uma luta que sei dever perder em algum momento
mas que preciso resistir o quanto puder

A fé já se foi, o sorriso luta contra a gravidade
o olhar que fita o horizonte vagueia já
buscando somente saber
onde fica o fim do caminho

A esperança remota acena cada vez mais ao longe
e só o que resta são poucos nobres companheiros
sangrando, feridos, tão cansados quanto eu
mas todos ainda de pé

Ainda não é hora de entregar-se
Não podemos ainda depôr as armas
temos nosso orgulho pelo qual lutar
nossa honra e estima ainda a defender

Parece tão pouco, mas é tudo que nos resta
e o que temos de mais valioso por zelar
não penso ainda em mais nada
todo o resto se foi

Não há nada a temer, nem nada a perder
permaneço em pé fitando o horizonte e esperando
mais uma alvorada se aproxima
significando que é preciso resistir um dia mais

Sorrir um dia a mais
estar lá um dia mais, ao lado dos meus
travando uma batalha íntima e secreta
contra a desesperança...

O pássaro, um ninho, a aranha, uma teia, o homem, amizade....

Eu estou aqui
sempre estarei aqui
eu luto por você
eu estou ao seu lado

Faço o que não me pede
e ouço o que não me diz
e não espero que me faça o mesmo
basta se importar

Eu aponto seus erros com o mundo
ajudo a corrigir suas falhas
incentivo sua força
e só espero que seja decente comigo

Enquanto estivermos lutando
sempre te darei cobertura
mas cuidado com o fio da tua espada
pode me ferir sem querer

Nunca vou me queixar de você
mas lembre-se que por trás da minha força resistente
há um ser humano fraco e sensível
minhas cicatrizes estão à mostra, veja-as alguma vez

Não me desrespeite
não me desonre
não rebaixe esta lealdade
não avilte esta devota amizade

Só o que espero em troca dela
é que seja honrado comigo
e se eu não encontrar essa honra
pessoa imperfeita que sou...

Pode cair, chorar, se envergonhar
e até fracassar e ser derrotado mil vezes
mas enquanto lutar com honra
então lutaremos lado a lado

Ao astuto

Do deus astuto e trapaceiro
não me esqueci em nenhum momento
nem deixo de prestar o meu respeito
ao seu dom de embusteiro

Pois que seria de nós sem o embuste
que vítimas do destino não seríamos
sem a malícia que faz o ajuste
entre a verdade e os sonhos

Suas brincadeiras cruéis e suas diversas facetas
tem seu valor tanto e quanto
o cetro ou a marreta
tolo quem duvide...

Rendo então minha homenagem
ao deus dos embusteiros
que sua proteção me livre
da tolice dos ingênuos

Bom presságio


Essa noite tive um bom presságio
pedi ao deus guerreiro e poeta
e ao deus guerreiro e valente
força e sabedoria
para tomar as rédeas do destino

E então vi as nuvens se acumularem
por sobre minha cabeça no céu noturno
e vi raios e ouvi trovões
a chuva caiu sobre mim

Uma deliciosa chuva de verão
para fertilizar minha alma ressequida
renovar o ar em meus pulmões
e o sorriso em meu rosto

Pedi também ao deus poderoso e fanfarrão
e à deusa guerreira e sábia
coragem para não desistir
até vencer ou cair tentando

E os ventos sopraram para o leste
e violetas perfumaram o ar
e o vinho era forte e bom
e o céu pediu o meu olhar

E por fim pedi ao deus sensual e gozador
e ao deus cornudo e brincalhão
que a diversão nunca se acabe
então senti um riso e um aviso.

Que tudo mude é o que desejo
que os caminhos se abram
e os horizontes sejam vistos
amplos e aprazíveis um dia...

O Ente

Desconcerta minha mente
desperta meu corpo dormente
desalinha minha face demente
Espicaça minha alma descrente

Acordaste em mim uma serpente
me soltaste ao sabor da corrente
fizeste germinar uma semente
desse pensamento recorrente

Nada se sustenta permanente
Não é possível estar silente
busco então o combatente
que jazia sob a terra inconsciente

Que fazes de mim ser penitente
De onde vens, o que pretende?
Tudo transfomou-se em uma torrente
Que pretende afinal este ente?

O grito

Respiro fundo
profundamente
o ar parece cada vez mais rarefeito

Cada palavra aqui não é semântica...
parecem frases, mas não são
é só um grito

Entrecortado, soluçante, profundo
me falta fôlego
me falta o ar...

Estou gritando meus amigos
estou gritando
mas não façam nada...

Deixem-me!
Permitam que emita o uivo mais pungente
apenas ouçam...

Enquanto eu grito
estou travando a batalha principal
aquela que é só minha

É um grito de desespero agora
e só sai de dentro de mim
porque preciso que saibam

Preciso que me ouçam gritar
para que entendam
o que está havendo

Quando pareço fugir
bater em retirada
é quando a peleja é mais intensa aqui dentro

E eu grito, porque senão ninguém saberá...
Não precisam vir em meu socorro
só recolham meus despojos se nada sobrar

Agora eu grito, em agonia
mas continuo gritando pra ganhar força
e converter esse grito
num rugido de bravura

Só esta noite

Só esta noite
eu terei uma noite de paz
só esta noite
eu terei um sono tranqüilo.

Somente esta noite
eu serei uma criança indefesa
embalada em doces sonhos
no abraço da noite.

Apenas esta noite
eu não terei medo ou aflição
repousarei a cabeça no colo de minha mãe
só esta noite.

Só esta noite
eu poderei fechar meus olhos
e me sentir segura
porque os deuses velam por mim
apenas esta noite

Mnemosis

Num sopro no tempo
meu mundo não é mais o mesmo
com um sopro do vento
tudo se transformou

O chão não é mais sólido
as verdades não são mais tão certas
a realidade é mutável, metamórfica
e a alma volúvel aguarda inquieta

O céu ainda é cinzento e turvo
e suas águas molham a mim e a você
com um sopro no tempo
nossos caminhos se separam

Meu espírito silente espera
mais frágil e inseguro que outrora
que teu espírito oscilante e temeroso
se incline em minha direção

No ermo, no silêncio, na escuridão
lavo minhas faces em segredo
me afasto só e em prantos
pra sorrir e não dizer adeus

O tempo soprou por entre as nuvens
as Moiras assim ordenaram
e sob o mesmo céu cinzento
o mundo já não é igual

Todos os rostos se parecem com o teu
teu cheiro ainda perdura
entranhado em minha pele
teu olhar ainda brilha em minha mente

Que será de nós nobre guerreiro?
Em minhas orações sempre peço aos deuses
que eu seja forte para derrotar
meu maior inimigo – eu mesma

A esfinge

Sou a esfinge e seu enigma
Decifra-me ou te devoro!
Haverá alguém capaz
de descobrir a resposta?

Um Édipo virtuoso
sem maldições nem profecias
com astúcia e sensibilidade
para ver através de meu véu de mistério?

Sentada sobre o rochedo eu aguardo
o retorno do Eros sem face
como deus do amor repleto
de corpo e alma e verdade

Mas ainda assim eu repito
Decifra-me ou te devoro!

Nos dedos da Aurora



Em meu sonho antigo e desbotado
havia alguém capaz de sorrir
só com a lembrança de minha existência
onde quer que eu estivesse

Alguém forte e fraco, viril e terno
suave e intenso, doce e picante
Lindo o vejo sempre
no olhar e no sorriso

Que conhecesse meus segredos
cada centímetro do meu corpo
e cada recanto de minha alma
e que sentisse alegria por isso

Um guerreiro de mãos fortes e potentes
com um toque gentil
somente para a minha pele
quando me tomasse entre os braços

Um feiticeiro bondoso
um ermitão gozador
capaz de decifrar o enigma
e conquistar meus tesouros

Alguém que se encheria de júbilo
apenas por me provocar um sorriso
e que ao fitar o horizonte
veria os mesmos caminhos que eu

Desse sonho antigo e rosado
devo eu despertar?

Retribuição

Eu não tenho palavras hoje
o silêncio paira ao meu redor
e minha alma se cala

Um vazio enorme aperta o peito
de sentir saudades do que nunca tive
sonhos macios e brancos

Promessas não ditas na madrugada
devaneios ou delírios?
Você pode sentir o que sinto?

Algo tão doce e tão terno
tão viril e sensual
promessas impronunciadas

Pairando madrugada adentro
desejos inconfessos
segredos revelados

Velo por ti essa noite
e tu velas por mim a distância
em silêncio sob o sorriso da Lua

Pand'oro

E desperta novamente o calor da alma
clarão, labareda sem controle
fogo divino que cega quem contempla
luz perene sem começo nem fim

Como estrela me pareço às vezes
não por sua luz brilhante
mas por estar tão distante
e mostrar o que já não é

Pode ser ressuscitada a fênix?
Pode ser sustentada a chama sempiterna?
Não abra a caixa dos segredos
aquele que não for digno de conhecê-los

Só não deve temer o furor dos elementos
aquele que for puro, bravo e forte
Tais energias primitivas não devem ser profanadas
por mãos fracas dos tolos

Fugaz

Tão pequeno, tão grande
um ponto distante no horizonte
pensamentos incessantes nos perturbam
que pena... perdemos o momento

Teu papel tão fugaz, tão irrelevante
um momento mágico que se perde
como areia ao vento
Desperdício, despedaça possibilidades

Teme, foge... de mim ou de ti?

Eros monstruoso

Por que veio você tirar meu sono?
Por que soprar as nuvens cinzentas do meu céu?
Por que querer cativar um bicho indômito?
Por que revelar o que é velado?

Estava tudo decidido e pronto e acabado!
Mas não... nunca a permanência
O homem que quer dominar os raios
Traz a tormenta e a tempestade
Cria reviravoltas, redemoinhos sem controle

Força, ocultando a brisa doce
das tuas palavras penetrantes e perturbadoras
A mesma brisa que beijou a face de Psiquê
Esperando por Eros nos rochedos ameaçadores

Não sopra tua brisa, não murmura teus sussurros...
Poderá sustentar a força que deseja libertar?
Poderá manter as promessas
dos sonhos que insiste em me fazer sonhar?

Como Psiquê, estou no alto dos rochedos agora
posso despencar ou voar...

Vento e Tormenta

O céu está cinzento hoje
e meus olhos flamejam
aguardando o momento do encontro

A brisa suave ganha força
há eletricidade no ar
e a magia está de volta

Lentamente os elementos se preparam
para o encontro do tufão
com as nuvens de tempestade

Num instante intenso os céus se aproximam...
Denso, quase sólido
quase podemos tocar o firmamento

A respiração ofegante
acompanha a velocidade do vento
e finalmente eles se encontram

Trevas e luz se fundem
o mundo vibra nessa reunião
de fúria, pureza e paixão

Por um segundo onde os anjos se revelam
a força da natureza se manifesta
plena e inteiramente

A vontade dos deuses se pronuncia
através de raios, estrondos
e rajadas de vento violentas

Feito o destino, a vida se reafirma
e investe vigorosa contra o medo
e a fertilidade permeia o mundo

Uma brisa suave então volta a soprar
e em meus olhos
uma chama diferente brilha agora...

Verborragia erótica

Porque isto também faz parte forte de mim...

Ah você!
Isto não é poesia
é a lembrança de uma brincadeira
que plantou úmidas sementes
no meu ventre ávido
Isto não é poesia
é pura libido ortográfica...

6 mar
ERUPÇÃO ORGÂNICA
Já não sou uma pessoa
sou um amontoado orgânico
latejante
de fluidos, carne ardente e hormônios
seu pedido, um impulso eletromagnético
que envia a ordem urgente
Cada centímetro de pele
e todos os recônditos profundos
dão resposta imediata
ao comando imperioso
Vibrando por dentro
me vejo submissa
Me ponho de joelhos aos seus pés
e sucumbo à ânsia de sorvê-lo todo
Provo sua dureza, rosada e suave
tão grande, tão quente
Sugo sofregamente cada gota de prazer
Seu ímpeto me sufoca
meus cabelos em suas mãos
mas não pretendo parar ainda
Sua voz, como num encantamento
emite palavras mágicas
e me transmuto em um ser feito de água
pronta para me moldar à sua forma
Subitamente me detém
me deixo entregue à sua volúpia
convicto, se guia para dentro
calafrios metafísicos
arrebatam corpo e alma
Terremotos e tempestades
parecem sacudir o mundo
Agora é você quem ouve
meus cânticos dionisíacos
e numa erupção titânica
explode em lava quente!

6 mar
SHHH!
Faz-me calar, por favor, faz-me calar!
Enfia alguma coisa em minha boca
que tenho uma angústia
um vazio a ser preenchido
Já não suporto mais as noites sem dormir
e os dias de delírio em vigília
quero gemer, quero gritar
um suor quente irrompe dos meus poros
a ação deve tomar lugar às palavras
Por favor, meu senhor, eu rogo
num suspiro profundo, faz-me calar...

6 mar
LIBIDO VERTIGINOSA
Quero braços que esmagam
beijos que sufocam
invasão abrupta
posse violenta
refreio de pudores
velocidade e força
avidez
descontrole
falta de ar
gritos orgásticos até o amanhecer...
Ah! Que sublime é o amor!
E que brutal o império da carne...!

6 mar
DELÍCIAS VULGARES
Louvemos a vulgaridade!
Não há delícia mais fácil
que a encontrada numa simplicidade perniciosa
Não há mistérios desvelados
não há jogos, nem enigmas
Carne sobre carne
pele sobre pele
boca sobre boca
e sobre carne
e sobre pele...
A satisfação imediata
e o gozo!
Isso é tudo

6 mar
FRUTAS CÍTRICAS
Ah! Como me arrepiei
pensando em seus sabores cítricos!
E que diferentes sensações
não causariam essa acidez pungente?
Mas que pena...
O limão cortado
quando não é chupado
se torna muito amargo...

6 mar
CAPRICHOS NUMEROLÓGICOS
2, um número ímpar!
Sim, não há outro como este
Você e eu
tu e você
como é possível?
Ouvir a sua música
admirar sua execução...
Mãos tão hábeis
devem conseguir arrancar surpreender notas!
Mas não...
2 já existem
você e a sua
ou você e seu ego
seja como for
3 é demasiado!
Vamos ao 6
número de Vênus!

6 mar
COLHEITA
Meus olhos pousaram sobre o seu corpo colorido
languidamente, lascivamente...
Seu sorriso amigável nem suspeita
o que vai em minha mente
Imagino sua temperatura
seu fruto maduro
suas medidas simétricas
Sua fala ritmada me sugere outros ritmos
e me pergunto como embalaria
meus sonhos na madrugada...

29 mar
fiat lux
O vazio estremece
é o caos querendo entrar
vibrando na boca do abismo
fervilhando e enlouquecendo

Jogos concentidos
desordem, desafio
desgrenhado e suado
sem controle, desvairio

Aqui pulsante, ali ereto
fora do alcance
o desejo esmaga
a razão fugidia

Como no princípio do cosmos
tudo parece vibrar
desejando unicamente
uma explosão luminosa!

30 mar
Gozo abissal
Devasso, profano, lascivo
Delicioso, arrogante e depressivo
Instiga o desejo da carne pulsante
Haverá por aí melhor amante?

Armadilha oculta no caminho
Despenhadeiro, ou vale de prazeres
Dor e desespero
ou paixão e medo?

Dentro uma atração irresistível
Flecha mirando certeira o alvo
pele suave, sabor ácido, salgado
Não há doçuras nesse encanto

É tudo quente, picante, em ebulição
perigoso abismo onde queremos nos jogar
totem de poder inenarrável
Toda essa luxúria disfarçada da mais polida cortesia

É só um gozo sem fim o que me espera
pra trazer dor, luz e delírio...

Algum veneno
Tenho muitos cheiros
muitas cores
muitas faces
muitas vozes
nem todos agradáveis
não se engane
Mas posso cantar
e encantar
fazer-te esquecer o mundo
por algumas horas ao menos
Tenho muitos sabores
temperaturas
texturas
misturas
Algum veneno
para uma boa noite de sono
Saborei-me e durma...