segunda-feira, 20 de julho de 2009

imutável mutante



Sou a mesma
e a outra
Aquela que nunca se revela
aquela que à noite vela

Quem te estende a mão
quando não há mais niguém
Quem parte em silêncio
quando a multidão vem

Quem entende tudo
e que tudo vê
Quem não sabe de nada
e em nada crê

A que do amor sorveu
o último gole
e que aceita as dádivas
que alguém esmole

Me verás no fundo do abismo
e no fundo da taça vazia
Ou numa flor de lírio
e em uma cama macia

Sou aquela a quem fazem perguntas
e aquela que vos deixa sem respostas
Sou o óleo aromático que vos besunta
tenho diversas camadas sobrepostas

Sou tudo o que quiseres
se essa for minha vontade
Ou sou a total ausência
humana bestialidade

Sou a imutável mutante
e o cavaleiro andante
A andarilha errante
e sua melhor amante...

quinta-feira, 9 de julho de 2009

O ESPÉCIME


Me avalio ininterruptamente tentando compreender que rumo estou dando à minha vida, que moral estou dando à minha história, que objetivos estou buscando e que caminhos estou trilhando.
É como se minha vida fosse para mim mesma uma experiência inacabada. Sou eu minha própria cobaia, faço estudos sobre meu comportamento como se fosse eu uma espécie nova ainda não catalogada que precisa de observação para compreensão e perpetuação da espécie (ou sua extinção se for constatada sua nocividade!).
Tento descobrir se sou nociva a mim mesma, se as dores que me parecem tão necessárias e inevitáveis realmente o são se não estou buscando coisas inexistentes e provocando meu próprio sofrimento. Desses estudos todos já constatei algumas coisas e cheguei a algumas conclusões. Mas há ainda muito de obscuro nesse espécime raro de mim mesma.
Descobri por exemplo, que um modo de vida comum, o tradicional a sociedade atual pelo menos, mataria o espécime. Este animal não vive bem em cativeiro, precisa de horizontes amplos e céu aberto para sentir-se saudável. Em cativeiro o animal adquire uma aparência doentia e apática. É um ser notívago, mas que pode se adaptar à vida diurna com alguma dificuldade. Não é um animal social, não se arrebanha e evita o contato com seres semelhantes, procurando apenas esporadicamente o convívio com outros animais de qualquer espécie. Em tenra idade já aprende a buscar alimento sozinho, mas procura a proteção do bando em momentos críticos, apesar de evitar uma aproximação mais íntima.
Definitivamente não é um animal domesticável, nascido selvagem, selvagem morrerá. Tem o hábito de procurar lugares ruidosos à noite, mas podemos encontrá-lo também em lugares isolados compenetrado em seus pensamentos. Seus hábitos alimentares são irregulares, incluindo a ingestão em grande quantidade de líquidos etílicos! O consumo por vias respiratórias de fumaças também é bastante excessivo. Ainda não pude observar qual o reflexo disso em seu metabolismo.
Parece também ser bastante resistente à dor, mas já o flagrei gemendo e chorando tristemente em alguns momentos. Apesar disso, tenho a impressão que gosta de se arriscar, que tem preferência por um alimento incomum que só pode ser encontrado em locais perigosos e de difícil acesso. Me parece até que este ser busca mesmo a dor, que ela é necessária para que seu organismo seja capaz de digerir adequadamente a estranha dieta de que ele faz alimento.
Este espécime é pouco ativo, passando longas horas com o olhar perdido, ou entretido com livros, filmes e internet. Já seus hábitos sexuais são bem estranhos, pois apesar de animal ter uma grande quantidade de hormônios e uma necessidade de copular muito intensa, parece rejeitar a grande maioria dos parceiros que se aproximam.
Temo pela vida de meu espécime, pois para tornar possível sua observação, tenho o mantido encarcerado e isso parece afetar profundamente sua saúde mental e física. Pretendo libertá-lo assim que possível em seu habitat natural, assim que puder descobrir qual o local mais adequado para este animal.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Lua Vermelha



Tão exausto de ser...
duro como rocha
firme, maciço, resistente!
Frio e poderoso

Como queria fraquejar
por um instante poder ser...
frágil, protegido, abraçado
guiado por entre as brumas

Baixar as armas, baixar a guarda
não resistir, nem lutar mais
se entregar aos sonhos de outro
e sonhar que é para sempre

Chorar e sorrir e amar
sem travar batalhas homéricas
simplesmente segurar outra mão
e seguir confiante...

Mas o sol se põe...
nasce outra lua sangrenta no céu
e seu urro valente e assustador
ecoa noite adentro...

segunda-feira, 6 de julho de 2009

...

a maioria das pessoas guia suas vidas na fuga da dor e na busca do prazer
repelem o medo e buscam alívio
outras, querem enfrentar o medo, superar a dor
e desprezar o prazer como amostra de uma felicidade impossível

domingo, 5 de julho de 2009

Temporadas


Por entre as nuvens de tempestade
há afinal um raio de sol
se esgueirando sorrateiramente
trazendo luz por entre as trevas

Depois de longos meses de inverno
a primavera traz o verão
e com ele sementes esquecidas no seio da terra
germinam timidamente...

Porém em movimento constante
o inverno retorna
trazendo sua luz branca
e pedindo paciência

Os campos de batalha estão vazios
os mortos recolhidos
os feridos se curando
e refazemos nossas vidas

Este é o momento da espera
da tímida observação
do aprendizado da conservação
e do instinto de preservação

Os frutos das sementes dormentes
sem forças, secaram
e adormecem outra vez
nas profundezas da terra

Mas a vida continua a fluir
e as sementes esperam placidamente
o momento fortuito para florescerem
arrebatadas da terra em esplendor