quinta-feira, 9 de julho de 2009

O ESPÉCIME


Me avalio ininterruptamente tentando compreender que rumo estou dando à minha vida, que moral estou dando à minha história, que objetivos estou buscando e que caminhos estou trilhando.
É como se minha vida fosse para mim mesma uma experiência inacabada. Sou eu minha própria cobaia, faço estudos sobre meu comportamento como se fosse eu uma espécie nova ainda não catalogada que precisa de observação para compreensão e perpetuação da espécie (ou sua extinção se for constatada sua nocividade!).
Tento descobrir se sou nociva a mim mesma, se as dores que me parecem tão necessárias e inevitáveis realmente o são se não estou buscando coisas inexistentes e provocando meu próprio sofrimento. Desses estudos todos já constatei algumas coisas e cheguei a algumas conclusões. Mas há ainda muito de obscuro nesse espécime raro de mim mesma.
Descobri por exemplo, que um modo de vida comum, o tradicional a sociedade atual pelo menos, mataria o espécime. Este animal não vive bem em cativeiro, precisa de horizontes amplos e céu aberto para sentir-se saudável. Em cativeiro o animal adquire uma aparência doentia e apática. É um ser notívago, mas que pode se adaptar à vida diurna com alguma dificuldade. Não é um animal social, não se arrebanha e evita o contato com seres semelhantes, procurando apenas esporadicamente o convívio com outros animais de qualquer espécie. Em tenra idade já aprende a buscar alimento sozinho, mas procura a proteção do bando em momentos críticos, apesar de evitar uma aproximação mais íntima.
Definitivamente não é um animal domesticável, nascido selvagem, selvagem morrerá. Tem o hábito de procurar lugares ruidosos à noite, mas podemos encontrá-lo também em lugares isolados compenetrado em seus pensamentos. Seus hábitos alimentares são irregulares, incluindo a ingestão em grande quantidade de líquidos etílicos! O consumo por vias respiratórias de fumaças também é bastante excessivo. Ainda não pude observar qual o reflexo disso em seu metabolismo.
Parece também ser bastante resistente à dor, mas já o flagrei gemendo e chorando tristemente em alguns momentos. Apesar disso, tenho a impressão que gosta de se arriscar, que tem preferência por um alimento incomum que só pode ser encontrado em locais perigosos e de difícil acesso. Me parece até que este ser busca mesmo a dor, que ela é necessária para que seu organismo seja capaz de digerir adequadamente a estranha dieta de que ele faz alimento.
Este espécime é pouco ativo, passando longas horas com o olhar perdido, ou entretido com livros, filmes e internet. Já seus hábitos sexuais são bem estranhos, pois apesar de animal ter uma grande quantidade de hormônios e uma necessidade de copular muito intensa, parece rejeitar a grande maioria dos parceiros que se aproximam.
Temo pela vida de meu espécime, pois para tornar possível sua observação, tenho o mantido encarcerado e isso parece afetar profundamente sua saúde mental e física. Pretendo libertá-lo assim que possível em seu habitat natural, assim que puder descobrir qual o local mais adequado para este animal.

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