segunda-feira, 6 de abril de 2009

Aquela que escreve

Eu a observo sempre...
Ela é uma escritora, eu acho
pelo menos ela escreve para viver
Esta mulher que ainda sorri cansada
de olhar duro e severo
penetrante e misterioso
que parece tão distante e inalcançável
Eu conheço sua história
Ela conheceu a felicidade antes
lhe parecia doce, mas pequena e fraca então
Porém veio a dor, intensa e implacável
a sua dor e a dor dos outros
tudo isso ela sentiu
e depois disso, cada riso tornou-se precioso
insubstituível cada momento de alegria
Hoje sua dor é grande e forte e graças a ela
seus momentos efêmeros de felicidade
também o são
Ela parece carregar consigo todos os anos do mundo
parece ter vivido todas as vidas
e viveu
Seu rosto ainda é jovem
mas seu olhar tem milênios
Ela ainda espera por um final feliz
pelo momento em que a dor seja suficiente
e dê lugar a uma alegria mais plena
Ela espera por isso
mas não acredita...
Seu futuro lhe parece solitário e sombrio
ela vê a dor dos outros e seus erros todos
sabe o quanto vão sofrer
e sofre por não poder impedir
Mas ela aprendeu a extrair prazer de sua dor
não da dor em si
mas do que a acompanha
Depois de provar do fruto do conhecimento
não é possível voltar a viver em inocência
não é permitido carregar ainda nos lábios
o sorriso dos tolos
A dor é o preço da felicidade suprema e fugidia
Só ela é capaz de tornar mágico cada simples minuto
Mas ela sofre ainda mais
porque vê um mundo que ninguém mais vê
sabe de coisas que ninguém mais sabe
conhece uma realidade que é incapaz de partilhar
e nem ela deseja isso
pois levaria a almas ainda sãs
um sofrimento que não poderiam suportar
Então ela carrega sua visão sozinha
como uma cruz de mártir
e se afasta da multidão
como quem não pode estar entre os seus
como uma estranha numa terra estranha
Ela lamenta que não haja ninguém
que queira provar de sua droga inebriante
todos que tem um vislumbre
ficam aterrados de medo e fogem
se desculpando
Mas ela não odeia a estes
pois compreende o medo em seus olhos
é um caminho de luz escuro demais
atemorizante demais
há outros mais fáceis, mas não tão belos
Mas a esperança se desfaz cada vez mais
e o futuro se torna cada vez mais triste e previsível
tanto que às vezes esta mulher não se sente um ser vivente
sente-se mais uma expectadora de sua própria vida
assistindo atos de um roteiro que já leu
Desejando que um autor desconhecido interviesse na história
com sua pena inovadora
Mas não parece haver surpresas felizes em seu caminho
e ela sabe que deverá reescrever sua própria história sozinha
de novo, de novo e de novo
e as histórias dos que a cercam também, ela já conhece
e tudo isso ela deve escrever sozinha
tudo o que vê com seu olhar severo e penetrante
ela sorri às vezes, para não assustar as crianças
mas sozinha no escuro da noite
ela tem de escrever, e tem de se cortar
para encher o seu tinteiro com seu próprio sangue

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