quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A GÊNESE




5, 4, 3, 2...

Mhhhhhhhhhh!!!

Eu sou uma pedra. É claro que não tenho consciência disso. Também não tenho noção de tempo, mas centenas de milhares de anos se passaram até que eu me desgastasse por completo e me misturasse aos nutrientes da terra, da qual me torno parte.

Agora estou no escuro, no ventre quente e úmido do planeta. Sinto umidade, secura, tremores, calor, frio, calor e umidade novamente. Mais alguns milhares de anos se passaram. Aos poucos, tentáculos nodosos avançam em minha direção, muito lentamente, até que me alcançam. Então, algo mágico acontece. Os tentáculos me tocam e passo a fazer parte deles. São raízes.

E agora sou uma planta. Sinto meu tronco reunir todas as energias num esforço contínuo para se esticar em direção ao astro luminoso que brilha nas alturas. Me abro em todas as direções, sempre para cima, nesse esforço contínuo. Tornei-me mais antiga, mais sólida. Preciso garantir minha sobrevivência e me cercar de outras da mesma espécie. Algo em mim está mudando, até que lindas e enormes flores amarelas surgem entre minhas ramagens, isso atrairá outros seres que auxiliarão na perpetuação de minha existência. Outras como eu vão crescendo ao meu redor, e sinto que sou todas elas.

Devagar, um ser alado se aproxima, dardejando suavemente um par de asas na cor vibrante de ouro. Delicadamente, suas minúsculas patas de inseto pousam sobre mim, e ele deposita seus ovos sobre as minhas folhas.

Depois de algum tempo, os ovos se rompem e pequenas criaturinhas hirsutas e pardas, de cor de folha seca saem de dentro, rastejando sobre mim. Elas nascem famintas, e minhas folhas, seu berço, são o alimento ideal. Uma delas começa a devorar a folha em que se encontra.

Nham!

E me tornei uma lagarta. Rastejar e me alimentar é tudo que preciso fazer por enquanto. Mas depois, começo a sentir uma enorme necessidade de encontrar um local seguro para me esconder, eu devo criar um casulo para me transformar no que realmente sou. Procuro o esconderijo adequado, mas me desequilibro e caio, indo parar nas águas de um riacho próximo. Um peixe redondo e de enorme boca então me abocanha.

Blurp!

Em perfeita sincronia, nadamos sob as águas rasas e cristalinas do rio. Sou um cardume de peixes. Porém, algo atrai minha atenção e me afasto do cardume, em direção à margem. Eis que um ser verde e rastejante vem em minha direção e sinto uma enorme sensação de perigo. Tento retornar ao meu grupo depressa, mas ele já me viu. Mais rápido que um pensamento, suas língua fina e comprida me fisga.

Slerp!

E sou um réptil. O mundo tão perto do chão é muito interessante, mas perigoso também. Passo a maior parte do tempo junto d’água ou me aquecendo ao sol. Eu vivo, me alimento, me reproduzo, e dos meus ovos irrompem meus filhotes. Agora sou eles também!
A vida de lagarto segue serpeando. Ao anoitecer, escondo-me entre rochas para dormir e não dispersar o calor do sol que absorvi durante o dia. Mas parece que não me escondi bem o suficiente. Longas e enormes asas mergulham sobre mim, e garras firmes me apanham.

Zap!

Uh! Uh! Uma coruja. Ágil e formosa foi o que me tornei. E depois da coruja, um pequeno mamífero e outro e mais um. A seguir, sou um mamífero maior, acho que uma espécie de elefante. As impressões de que sou capaz de captar de nosso mundo são muito mais complexas e minhas reações e sentimentos também. Sou também mais inteligente. Desde algum tempo que já tenho consciência de mim mesmo e das coisas que me cercam com clareza. Tudo pelo que passei me fez capaz de sentir a dor da perda, a empatia ao colaborar com um dos meus, a ira contra os que desafiam minha força e capacidade ou a fúria contra os que me ameaçam.

Eu desejo a companhia de meus semelhantes e sinto uma grande necessidade de prosseguir, não somente em busca de água e comida, mas de algo que não sei explicar, que sinto quando o sol se põe. Vivo uma longa existência, mas mínima em relação ao tempo do mundo. Afinal ela termina.

Continuo sendo, através de muitas existências. Já não sou capaz de saber o que fui antes. Entretanto, a minha consciência de mim mesmo no momento presente é muito mais profunda. Agora sou uma espécie de símio. Vivemos em grupos e nos adaptamos com facilidade. Descobrimos como nos alimentar de praticamente qualquer coisa.

Mas há lutas terríveis e sangrentas entre os bandos de nossa espécie, na disputa pelo território, pelas fêmeas e por alimentos. E também gostamos de ferir seres de outras espécies, não só para comê-los, nem só quando nos ameaçam, mas quando achamos que nos serão úteis para alguma coisa ou simplesmente porque descobrimos prazer na dor.

Descobrimos inúmeros outros sentimentos também, cada vez mais diversificados, apesar de o instinto de sobrevivência ainda ser predominante em nós e o que nos mantêm unidos.

Vivo muitas vidas entre esses bandos símios e vejo ao longo do tempo, o qual já sou capaz de compreender, eles evoluírem física e psicologicamente. Caminhando eretos, suas comunidades tornam-se mais organizadas. Sua brutalidade e crueldade também vão ganhando requintes. Mas sua inteligência também é capaz de desenvolver ferramentas benéficas à comunidade. Dominamos o fogo, inventamos a roda e centenas de outras coisas. Nossa capacidade de adaptação e nossa criatividade para desenvolver objetos que facilitam as tarefas diárias aos poucos faz de nós os seres dominantes do planeta. Finalmente, primeiro de forma rudimentar, depois nos aprimorando, nos tornamos capazes de articular palavras para expressar pensamentos.

!

E agora, sou um ser humano.

Antes de ser concebido, estou pairando junto aos meus futuros pais. Percebo isso, e me dou conta de que sou um agrupamento de energia sob a forma humana. Lembro-me de como essa energia foi aumentando e tomando forma, às vezes se dividindo e outras se agrupando durante todas essas minhas existências para que eu chegasse à forma que sou hoje. Por um momento, percebo que tudo que há ao meu redor possui uma fração dessa energia que se formou em mim e por um milésimo de segundo recordo-me de quando essa energia dispersa em milhões de seres era um único aglomerado indefinido de energia e matéria que vibrava em torno de si mesma em nome do único e intenso desejo de conhecer, expandir a si mesma e explorar todos os seus limites e capacidades, até que esse desejo se tornou tão forte que esse ser único se comprimiu contra si mesmo de ânsia e se lançou em todas as direções do universo...

Antes de finalmente nascer, lembro-me de tempos de guerra e de paz, de progresso e de estagnação, de amor e de ódio, mas percebo que o desejo primordial de conhecer e explorar a si mesmo ainda permanece no âmago de cada ser vivente, movendo-nos todos e fazendo com que continuamente nos lancemos em direção à existência, para desvendar o que somos...

E o que virá a seguir?

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